Especialista em tumultuar: PL descobre, de repente, o “direito ao descanso”

Foto: Pedro França/Agência Senado

Após meses tentando atrasar o debate sobre o fim da escala 6×1, PL muda de discurso e tenta vestir a fantasia de defensor do trabalhador, mas o roteiro da sabotagem ainda está fresco demais para ser esquecido

Há algo quase comovente, não fosse ofensivo, em assistir certos setores da política brasileira descobrirem, subitamente, que o trabalhador merece descansar. Depois de meses atuando para atrasar, esvaziar e tumultuar o debate sobre o fim da escala 6×1 e a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, o Partido Liberal (PL) resolveu anunciar apoio à proposta da escala 4×3. Assim, de uma hora para outra, quem tentava empurrar o relógio do trabalho brasileiro de volta ao século XIX passou a posar como entusiasta da modernidade trabalhista.

O anúncio feito pelo deputado Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara, não representa exatamente uma mudança de convicção. Representa, antes, uma mudança de cálculo político. São coisas bem diferentes, embora, em Brasília, frequentemente sejam tratadas como sinônimos.

Até poucos dias atrás, integrantes do partido defendiam propostas que permitiam ampliar a jornada para 52 horas semanais e estender por uma década a transição para a redução das atuais 44 horas. Dez anos. Porque, aparentemente, há parlamentares que acreditam que o trabalhador brasileiro precisa de uma adaptação lenta e cuidadosa para o radical conceito de… descansar um pouco mais.

Enquanto isso, na segunda-feira (25), o deputado Maurício Marcon (RS) solicitava vista do texto da PEC e atrasava deliberadamente a votação. Uma estratégia clássica: quando não se consegue derrotar uma pauta popular, tenta-se sufocá-la no cansaço burocrático. É a política do “deixa como está para ver se o povo esquece”. Não por acaso, funciona tão bem em um país onde milhões trabalham exaustos.

O mais curioso — e aqui a ironia se impõe quase por obrigação moral — é observar alguns defensores do liberalismo de palco, tal como o mineiro Nikolas Ferreira, insistirem na tese de que “o trabalhador negocie diretamente com o patrão”. A frase soa elegante em vídeos de rede social, especialmente acompanhada de corte dinâmico, música épica e comentários inflamados. Na vida real, porém, a negociação entre empregado e empregador costuma ocorrer com um detalhe técnico inconveniente: um tem o salário do mês na mão; o outro precisa dele para sobreviver.

A romantização dessa falsa igualdade nas relações de trabalho talvez seja uma das grandes farsas contemporâneas do debate econômico brasileiro. O discurso da “livre negociação” ignora deliberadamente a brutal assimetria existente entre capital e trabalho. Ignora também que direitos trabalhistas não nasceram da boa vontade patronal, mas de décadas de mobilização social, greves, enfrentamentos e pressão política.

Nenhum empresário acordou um dia, emocionado, e declarou espontaneamente: “acho que meus funcionários deveriam trabalhar menos e viver melhor”. A história simplesmente não funciona assim. Se funcionasse, não existiriam férias, 13º salário, licença-maternidade ou limite de jornada. O chicote talvez ainda estivesse em fase de regulamentação.

O debate sobre a escala 6×1 não é um capricho ideológico. É uma discussão sobre saúde pública, dignidade humana e produtividade. Países que avançaram na redução de jornada não colapsaram economicamente, apesar do terrorismo retórico de sempre. Ao contrário: diversos estudos apontam melhora na qualidade de vida, redução de adoecimento mental e até aumento de produtividade em determinados setores. Descobriu-se, com espanto revolucionário, que pessoas descansadas trabalham melhor do que pessoas esgotadas.

A discussão sobre o fim da escala 6×1 exige seriedade. Não pode ser reduzida a manobra de redes sociais, performance parlamentar ou oportunismo eleitoral. O trabalhador brasileiro já carrega peso suficiente nas costas para ainda precisar sustentar teatro político disfarçado de preocupação social.

E talvez esse seja o aspecto mais revelador de toda essa história: quando até os que sabotavam a proposta começam a fingir apoio, é porque perceberam que a sociedade já entendeu algo fundamental: trabalhar até a exaustão nunca foi virtude, mas apenas conveniência para quem lucra com o cansaço alheio.

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