Gruta de Nossa Senhora de Lourdes, parte do conjunto da Igreja São José Operário, é reformada com recursos públicos
O artigo de opinião publicado pelo jornalista e editor Erivelton Braz na edição de 10 de julho de 2026 do jornal A Notícia, sob o título “O respeito à imprensa também precisa ser restaurado”, vai muito além de uma resposta a um episódio específico. Seu texto lança luz sobre um debate que deveria preocupar qualquer cidadão comprometido com a democracia: até onde instituições públicas ou privadas podem tentar controlar a circulação das informações de interesse coletivo?
Ao utilizar como pano de fundo a repercussão de uma reportagem publicada nas redes sociais do jornal sobre as obras de restauração da Gruta de Nossa Senhora de Lourdes, Erivelton lembra que a imprensa não existe para substituir os canais oficiais, tampouco para reproduzir comunicados institucionais sem questionamento. Sua função é investigar, contextualizar, confrontar informações e oferecer à sociedade elementos para formar seu próprio juízo. Parece uma obviedade. Mas, em tempos em que qualquer perfil em rede social se apresenta como fonte definitiva da verdade, o óbvio passou a exigir defesa.
Há uma tendência preocupante de confundir transparência com divulgação seletiva de informações. É como se bastasse criar um perfil oficial nas redes sociais para que a prestação de contas estivesse concluída. Afinal, segundo essa lógica, quem precisa de jornalismo quando existe um departamento de comunicação produzindo belas fotografias, vídeos bem editados e legendas cuidadosamente revisadas?
Seria uma solução extraordinária.
Tão extraordinária quanto permitir que um árbitro jogasse pelo próprio time e ainda fosse responsável por validar o resultado da partida.
A verdade, porém, é menos confortável.
Comunicação institucional tem o dever de apresentar a posição oficial de uma organização. O jornalismo, por sua vez, possui o dever de fazer perguntas, buscar documentos, ouvir diferentes versões e, quando necessário, revelar aquilo que o discurso oficial prefere silenciar.
No artigo publicado em A Notícia, Erivelton Braz acerta ao afirmar que nenhum canal oficial substitui o trabalho da imprensa independente. Não porque exista uma disputa entre ambos, mas justamente porque exercem papéis complementares dentro de uma sociedade democrática.
Quando um projeto envolve recursos públicos — como ocorre no caso da restauração da Gruta de Nossa Senhora de Lourdes, que mobiliza investimentos municipais e verbas provenientes de acordos firmados com o Ministério Público — o interesse deixa de ser exclusivamente institucional. A sociedade passa a ser parte legítima dessa discussão.
E onde existe interesse público, existe também o direito de perguntar.
No texto publicado em 10 de julho, Erivelton Braz também recorda sua longa trajetória acompanhando o patrimônio histórico de João Monlevade e as discussões envolvendo a Gruta de Nossa Senhora de Lourdes. Independentemente da concordância com suas análises, há um aspecto incontestável: o acompanhamento contínuo da imprensa constrói memória histórica.
Outro mérito do artigo é lembrar que liberdade de imprensa não é um privilégio dos jornalistas. Trata-se de um direito coletivo. Quando um profissional tem sua atuação deslegitimada simplesmente por exercer o dever de informar, quem perde não é apenas a categoria. Perde a sociedade.
A restauração da Gruta de Nossa Senhora de Lourdes certamente é importante para João Monlevade. Mas há algo igualmente valioso que também precisa ser preservado: a liberdade de perguntar. Porque patrimônios históricos podem ser restaurados com recursos financeiros, projetos técnicos e mão de obra especializada. Já o respeito à imprensa, quando começa a ruir, exige muito mais do que obras para ser reconstruído.
