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Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa

Entre o autoritarismo interno e a ingerência externa: democracia, petróleo e poder na Venezuela

Muitos de nós acordamos na manhã de sábado, dia 3 de janeiro, surpresos com a notícia de que uma operação dos Estados Unidos na Venezuela resultou na prisão do ditador Nicolás Maduro.

É difícil não se solidarizar com milhões de venezuelanos forçados a abandonar sua terra devido à crise política e econômica que assola seu país. Segundo a Agência das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), aproximadamente 8 milhões de venezuelanos estão vivendo no exterior, e outros milhares continuam deixando a Venezuela para escapar da violência, da insegurança e das ameaças, assim como da falta de alimentos, remédios e serviços essenciais.

Em julho de 2024, o mundo dirigiu seus olhos para a Venezuela, que realizou mais uma eleição presidencial. À época, o Conselho Nacional Eleitoral, órgão ligado ao ditador, anunciou Maduro como vencedor e o nomeou presidente, sem mostrar com clareza os detalhes das atas de apuração. Há quem não se lembre, mas nesse contexto de acusações de fraudes nas eleições, presidentes do Brasil e da Colômbia, por exemplo, cobraram mais de uma vez, e bem o fizeram, a divulgação das atas de votação das eleições. Observadores internacionais que estiveram no país durante o pleito também apontaram dúvidas sobre a lisura do processo, que desde o princípio apresentava sinais de que não seria conduzido realmente de modo democrático.

Nicolás Maduro foi eleito presidente em 2013, após a morte de Hugo Chávez, e de lá para cá são inúmeras as críticas em relação à forma como conduz o país. A crise migratória iniciada ainda durante a presidência de Hugo Chávez se intensificou, e muito, durante o governo de Maduro.

Lembremos, ainda, que Nicolás Maduro enfrenta críticas recorrentes por uma política de repressão a opositores, denunciada por partidos, organizações civis e observadores internacionais, que apontam prisões arbitrárias, processos judiciais contestados e restrições à liberdade de expressão.

Apesar das inúmeras sanções econômicas impostas ao ditador e à Venezuela pelos Estados Unidos e por outros países, a situação seguiu alastrando-se ao longo dos anos. Cabe mencionar, porém, que mesmo apontadas como forma de pressionar um governo, as sanções também prejudicaram diretamente à população.

Invasão norte-americana

O que foi exposto até aqui tem como objetivo contextualizar o momento histórico e social vivido por nossos vizinhos venezuelanos. Trata-se de um cenário marcado pela ausência de uma autoridade política comprometida com os princípios democráticos e com o respeito aos direitos humanos.

No entanto, se há, além de Nicolás Maduro, outro líder político avesso à democracia, este é o presidente estadunidense, Donald Trump, que comandou um ataque contra a Venezuela na madrugada deste sábado e anunciou a captura de Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores.

Donald Trump acusa Nicolás Maduro de liderar uma organização criminosa voltada ao tráfico internacional de drogas. Paralelamente, bombardeios realizados por forças norte-americanas contra embarcações nas águas do Caribe vêm sendo registrados nos últimos meses.

Um ponto, porém, não pode passar despercebido. Em entrevista após o ataque à Venezuela, Trump afirmou que os EUA vão governar o país até uma transição. Além disso, antecipou que os EUA passarão a estar “fortemente envolvidos” com a indústria petrolífera do país.

Se há algo com o que os Estados Unidos não parecem estar preocupados, é com a democracia ou com a população da Venezuela. O ataque ao país e a prisão do ditador Nicolás Maduro servem, na prática, para demonstrar o poderio militar norte-americano e reafirmar sua influência sobre a América Latina — região historicamente tratada como seu “quintal”. Essa movimentação ocorre em um contexto de mudanças significativas, impulsionadas pelo avanço do multilateralismo, que consolidou a China como uma presença internacional cada vez mais forte e influente.

Torcemos para que a Venezuela encontre, após a queda do ditador que permaneceu por mais de 12 anos no poder, caminhos de paz e prosperidade. No entanto, é sabido que sua economia, fortemente dependente do petróleo, pode passar a ser condicionada por interesses dos Estados Unidos. As reservas comprovadas de petróleo venezuelanas são reconhecidas como as maiores do mundo, estimadas em cerca de 300 bilhões de barris.

É por isso que este artigo se intitula Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. As garras de um ditador sobre um povo tão sofrido não podem servir de justificativa para que outro líder, igualmente pouco comprometido com a democracia, invada um território soberano, viole os princípios do direito internacional e tente se apossar de suas riquezas.

Ilustração feita com fotos de: Marcelo Camargo/Agência Brasil e Pixabay